“Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” Pais que só se preocupam, mas não educam

Uma das principais funções dos pais, é ensinar filhos sobre os riscos e perigos do cotidiano. Assim, eles adquirirão segurança pessoal e levarão pelo resto da vida esse importante condicionamento. Quando a criança alcança certa liberdade de ir e vir, a lição ofertada pelos genitores é...

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Uma das principais funções dos pais, é ensinar filhos sobre os riscos e perigos do cotidiano. Assim, eles adquirirão segurança pessoal e levarão pelo resto da vida esse importante condicionamento. Quando a criança alcança certa liberdade de ir e vir, a lição ofertada pelos genitores é uma frase histórica e repetitiva:

“Filho, não converse com estranhos na rua, é muito perigoso”.

Essa orientação, na verdade, é simplória e inócua. No mesmo dia que o pai ofertou essa ordem à criança, conversou com vários estranhos durante passeio, como por exemplo, alguém que lhe pediu esmola e foi atendido ou com um homem que solicitou indicação de rua e o pai, educadamente, explicou direitinho o percurso.

A criança que presenciou o pai conversar com pessoas desconhecidas, vai tomar como base o exemplo e não o discurso.

O pior está por vir, pois além de insistir que o filho não deve conversar com estranhos no mundo real, presenteia o garoto com smartphone para que ele interaja no mundo virtual, o que acontece na maior parte do tempo com desconhecidos.

A conclusão é uma só:

Como pais podem querer transferir instruções de segurança aos filhos se agem de forma insegura na maior parte do tempo

Temos no Brasil a cultura consolidada do reativismo, ou seja, tomamos atitudes depois da porteira arrombada. Aí, só resta mesmo chorar e lamentar!

Achei muito curioso a preocupação de pais com mensagens oriundas pelo whatsapp dando conta que facção criminosa paulista estaria sequestrando crianças com a finalidade de venda de órgãos.

Nenhuma ocorrência foi registrada nesse sentido, mas o pânico rondou muitos lares.

Mas do que adianta tanta preocupação se não houver ação! A palavra de ordem deve ser prevenção e não pré – ocupação.

Estudo segurança pública e privada há 30 anos; peço, encarecidamente, àqueles que têm filhos, para enterrarem a orientação de que filho não deve conversar com estranhos. Isso é uma bobagem e um tremendo desserviço para com sua prole.

Seu filho vai ter contato com estranhos a todo momento, não só no mundo real, mas, principalmente, no mundo virtual.

A educação voltada para a segurança deve ter estratégia elaborada; não pode ser resumida a simples frases feitas. Se deseja que seu filho cresça com atitudes voltadas para a segurança pessoal e familiar, prepare-se para gastar muita energia e paciência, pois as aulas devem ser constantes e a supervisão também. Somente com persistência é que o filho vai incorporar segurança em sua estrutura psicológica, mesmo vivendo num país onde poucos exercitam prevenção diariamente.

O americano tem o hábito de dizer ao filho que no decorrer do dia muitas pessoas estranhas vão de alguma forma puxar conversa e que isso é absolutamente normal. Por outro lado, ele não deve confiar em pessoas que não conhece. Por isso, as crianças nos EUA são doutrinadas a não permitir que desconhecidos encostem em seu corpo, e se isso acontecer, devem gritar por ajuda.

Outra lição importante, é estabelecer raio de segurança ao conversar com estranhos e jamais sair dele, mesmo sendo solicitado.

Em outubro/2016, um garotinho de 5 anos estava com os pais na avenida Paulista/SP. A genitora prestava atenção na vitrine e o pai realizava filmagem com o celular. Em dado momento, um homem mal vestido e aparentando cerca de 50 anos de idade, aproxima-se do menino, conversa rapidamente e logo pega delicadamente em um de seus braços. Em seguida, deve ter dado a seguinte voz de comando:

“Vem comigo, vamos brincar” ou “Me acompanhe, vou te mostrar um cachorrinho”.

O menino não teve a menor dúvida, aceitou a ordem do estranho e começou a andar com ele de mãos dadas. A sorte é que o pai acompanhou o ocorrido através da lente da filmadora do celular.

Não se pode evitar que alguém se aproxime de uma criança de 5 anos em rua de grande movimento. O estranho puxou conversa com o menino, que estava longe dos olhos dos pais, em plena avenida Paulista. Mas no momento em que o desconhecido fez o convite para sair daquele local, o garoto poderia ter dito simplesmente a palavra “não”. Se em seguida o desconhecido insistisse e pegasse em seu braço, o correto era disparar o alarme bocal e gritar:

“SOCOOOOOOOOORRRRROOOOOO”

Com essa simples atitude preventiva, o homem iria se retirar e com certeza procurar uma criança que fosse desavisada. Mas a criança não foi orientada e nem treinada para isso!

Soube, em 2015, de caso trágico ocorrido em casa noturna localizada em bairro nobre de São Paulo. Uma moça de 22 anos conheceu bonito jovem no local. O rapaz tentou aproximação mas ela recusou, pois tinha saído de namoro recente e ainda estava triste. Após quase duas horas conversando, a moça comentou que iria chamar um taxi para ir embora; as amigas que vieram com ela queriam curtir até a madrugada. O educado desconhecido disse que também precisava ir embora porque tinha que estudar no dia seguinte e ofertou uma carona. A moça não vislumbrou perigo e aceitou o convite. No caminho foi abusada sexualmente.

A vítima, ao ceder à vontade do desconhecido e entrar em seu carro, deixou o raio de segurança para trás e ingressou em zona de perigo.

FINALIZANDO:

Se você tem filhos, independente da idade, aconselhe-os a ter atitudes seguras no cotidiano. Lembre-se que a repetição é a mãe da memória. Mas tome cuidado com a orientação que vai dar. Procure primeiro se instruir do que realmente é seguro, para não cometer erro gravíssimo de orientar filhos de forma equivocada ou banal, que não produz eficácia

Tenha em mente que o que você apenas verbaliza representa bem menos que suas atitudes.

O velho jargão popular “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” é uma armadilha perigosíssima que vai desconstituir tudo que você falou, pois o exemplo fala mais alto.

Imagine pai que martela na mente do filho, que está tirando habilitação, que beber e dirigir é perigoso, além de configurar crime pela lei brasileira. Enquanto ouve, o rapaz lembra de todas as vezes em que retornaram de festas e o pai, até a mãe, dirigiram embriagados.

O filho irá seguir a orientação verbal do genitor ou o exemplo negativo que vivenciou?

Na vida, aprendemos muito mais com exemplos do que com palavras.

Agora, exigir do filho atitudes seguras se ele convive com hábitos inseguros em casa, é ser por demais infantil ou inconsequente e, pior ainda, é não temer os perigos da vida.


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