A função social dos meios de comunicação tem que sobrepujar a mera banalização da violência urbana

Quando o assunto é prevenção a crimes, sou pioneiro no Brasil. Em 1999 lancei o livro Como Conviver Com a Violência, pela editora Moderna. O objetivo, registrado em quase 400 páginas, foi mostrar ser possível reduzir quase a zero o risco de ser vítima de...

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Quando o assunto é prevenção a crimes, sou pioneiro no Brasil. Em 1999 lancei o livro Como Conviver Com a Violência, pela editora Moderna. O objetivo, registrado em quase 400 páginas, foi mostrar ser possível reduzir quase a zero o risco de ser vítima de furtos e assaltos.

Na época era um tema pouco discutido, inédito na amplitude que apresentei, e por isso, chamou a atenção dos principais veículos de comunicação. Num primeiro momento, fui questionado sobre o tipo de colocação, diziam que as pessoas não deveriam restringir os hábitos considerados por mim inseguros, que caberia aos órgãos de segurança pública garantir a segurança dos cidadãos. Essa postura foi se dissipando por força da realidade e cada vez mais o tema prevenção se tornou presente nas pautas de jornais, revistas, rádios, televisão e internet. Até então, se confundiam dois institutos importantes mas completamente distintos: segurança pública e segurança pessoal.

Os meios de comunicação, com seus conteúdos, têm como objetivo informar, educar e entreter seus determinados públicos. No entanto, devem ir além e abraçar também a função “social”.

Nos últimos anos, por seus aspectos cada vez mais decisivos para a população, a violência urbana tem sido tema recorrente em toda mídia. Nos meios de comunicação, os crimes podem ser analisados sob diversos ângulos, sendo que o de cunho sensacionalista ou alarmista é o que menos cumpre papel educativo e, consequentemente, promove a prevenção. Crimes bárbaros, com requintes de crueldade, devem ser noticiados à exaustão; a sociedade precisa ter a noção exata dos riscos que está correndo.

Entendo que a notícia de cunho policial pode ser importante canal para alertar a população quanto a métodos para minimização de riscos e ainda informar sobre legislação penal e direitos dos cidadãos; é a difusão de uma visão completa e educativa.

Um exemplo esclarecedor acontece quase sempre que sou entrevistado, porque é comum a pergunta sobre se é possivel reduzir quase a zero o risco de assaltos nas ruas. A resposta que oferto é esta

“Claro que sim; é fácil manter-se afastado de situações perigosas e se livrar de problemas relacionados à violência urbana ”.

Geralmente, replicam com a indagação

“Mas qual é o segredo para não ser assaltado, mesmo morando e trabalhando em uma cidade com altos índices criminais?”

Após estudar, pesquisar à fundo e entrevistar, pessoalmente, marginais, vítimas e policiais experientes, descobri que “enxergar” atitudes suspeitas no cotidiano é relativamente simples, basta ter a mente voltada para a segurança pessoal. No entanto, geralmente, a pessoa está centrada na atividade momentânea, seja laboral ou recreativa e não consegue pensar em segurança.

Nas palestras que ministro pelo Brasil, sempre digo a seguinte frase:

“Não há trabalho tão importante e lazer tão urgente que não possa ser feito com segurança”.

A ideia central, é que as pessoas se condicionem a observar o que está acontecendo ao seu redor e consigam “enxergar “o que a maioria não vê, que é a atitude ou situação suspeita. Se você está interessado em zerar as chances de ser vítima de roubo, furto ou qualquer outro tipo de delito, passe a seguir o seguinte roteiro mental no seu dia a dia:

1) Independente do que estiver fazendo, fique atento às pessoas que estão ao seu redor. Sinta o ambiente;

2) Procure identificar potenciais perigos. Pessoas mal intencionadas não agem com naturalidade; geralmente estão tensas, apreensivas, olhando de um lado para o outro, andando sem direção definida, sem saber onde enfiar as mãos, suando em demasia e etc;

3) Preveja o que a pessoa suspeita possa fazer. Qual será a intenção dela? Ouça a voz da intuição, que é a melhor ferramenta para segurança pessoal, pois a todo momento nos alerta de perigos iminentes. Mas para que isso ocorra, sua intuição precisa estar acionada;

4) Identificado o risco ou perigo, reflita qual decisão tomar objetivando se ausentar do local;

5) Tome atitude proativa com firmeza e rapidez, afaste-se do perigo. Para onde se deslocar de forma segura? Pessoas com a mente focada em prevenção e segurança jamais são pegas de surpresa!

O leitor já reparou que os animais são super ariscos?

Intuitivamente se previnem.

Você está com pressa e tem que descer uma escada de mármore recém lavada com sabão?

Quais as precauções que toma?

  1. a) Desce devagar;
  2. b) Coloca a mão no corrimão;
  3. c) Olha atentamente para os degraus;
  4. d) Todas as anteriores;
  5. e) A pressa não deixa ver os perigos.

O jornalista Ferreira Neto, em 2002, levou um tombo ao descer uma escada; bateu a cabeça e faleceu em razão de traumatismo craniano. Em nosso cotidiano ficamos sujeitos a riscos e problemas que podemos vencer se tivermos a mente voltada para a prevenção. Pense sempre primeiro na sua segurança.

A pressa é inimiga da perfeição e aliada dos bandidos.

Acredito que você não desceria uma escada ensaboada sem as devidas cautelas. Portanto, elimine a possibilidade de o perigo se concretizar. Ande a pé, dirija seu veículo, frequente o banco, caixa eletrônico e o comércio prestando atenção no que está acontecendo ao seu redor. Da mesma maneira que você pode evitar um tombo ao descer uma ladeira, evite crimes usando o armamento mais eficaz e barato existente no mercado: prevenção.

O objetivo desta minha explanação sobre segurança pessoal, é fazer o leitor refletir e prestar mais atenção no que acontece ao seu redor, visando, com isso, não se tornar alvo fácil da marginalidade. A função social dos veículos de comunicação, diante de uma sociedade carente de informações reais e práticas, exemplos construtivos e ensinamentos, é essencial e insubstituível.


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