Aluno, com apoio da mãe, processa professor que tomou seu celular em sala de aula. Saiba o resultado da sentença?

Normalmente, escrevo crônicas, faço comentários, proponho soluções. No entanto, este texto é quase todo a transcrição de um fato real, recentemente ocorrido e que bem demonstra um dos graves problemas que o país enfrenta e que deve, urgentemente, se empenhar na solução, porque é a...

809

Normalmente, escrevo crônicas, faço comentários, proponho soluções. No entanto, este texto é quase todo a transcrição de um fato real, recentemente ocorrido e que bem demonstra um dos graves problemas que o país enfrenta e que deve, urgentemente, se empenhar na solução, porque é a única forma de se fortalecer como nação e proporcionar melhor qualidade de vida a seus cidadãos.
Enquanto ministrava aula numa sala do ensino médio, em escola pública, o professor notou que um dos alunos, de nome Thiago, estava concentrado no celular, com fones de ouvido plugados nas orelhas. Imediatamente, retirou o aparelho das mãos do menor de idade, que se sentiu ofendido. Revoltado, o garoto deixou a escola e foi correndo para casa contar o ocorrido para sua genitora, que, de pronto, tomou as dores do filho e procurou advogado, que ingressou com ação de reparação por danos morais, inserindo na petição que o jovem passou a ter “sentimento de impotência e revolta, além de enorme desgaste físico e emocional”.
O estudante, na Justiça, disse que apenas estava utilizando o celular para ver as horas. Porém, o juiz Eliezer Siqueira de Sousa Junior, da 1ª Vara Cível da cidade de Tobias Barreto, interior do Sergipe, após analisar as provas, concluiu que o garoto havia mentido, pois restou-se provado que quando o professor retirou o celular de suas mãos, o fone de ouvido desplugou e o aparelho passou a tocar música. Conclusão: o jovem não estava prestando a menor atenção na aula; curtia, tão somente, sua melodia preferida, e para tanto, descumpria, flagrantemente, norma interna da escola.
O juiz, em sua sentença, afirmou que “o professor é o indivíduo vocacionado a tirar outro indivíduo das trevas da ignorância, da escuridão, para as luzes do conhecimento, dignificando-o como pessoa que pensa e existe. Ensinar era um sacerdócio e uma recompensa. Hoje, parece um carma”.
O magistrado aproveitou para fazer um desabafo sobre a grave realidade brasileira no que tange à educação de jovens:
“Julgar procedente esta demanda, é desferir uma bofetada na reserva moral e educacional deste país, privilegiando a alienação e a contra educação, as novelas, os realitys shows, a ostentação, o “bullying intelectivo”, o ócio improdutivo, enfim, toda a massa intelectivamente improdutiva que vem assolando os lares do país, fazendo as vezes de educadores, ensinando falsos valores e implodindo a educação brasileira. No país que virou as costas para a Educação e que faz apologia ao hedonismo inconsequente, através de tantos expedientes alienantes, reverencio o verdadeiro herói nacional, que enfrenta todas as intempéries para exercer seu “múnus” com altivez de caráter e senso sacerdotal: o Professor”.
Sob todos os ângulos analisados, o que se depreende do ocorrido, muito bem posicionado pelo emérito magistrado, é uma série de fatos lastimáveis, mas que são quase corriqueiros dentro de nossas fronteiras nacionais. O aluno já tinha sido repreendido sobre a impossibilidade de usar celular em sala de aula, mas não se intimidou, preferiu continuar a transgressão disciplinar. A genitora, ao invés de apoiar a decisão do professor, preocupado com a educação de seu filho, preferiu passar a mão em sua cabeça e insurgir contra aquele que desejava o melhor ao jovem. O advogado não teve o bom senso para rejeitar pedido tão esdrúxulo de indenização. Seu cliente tentou, perante um juiz de direito, justificar o uso do celular através de mentira esfarrapada. E o professor, cuja única culpa foi ter boa intenção para com o aluno arredio, deve ter passado noites insones e gasto bom dinheiro para se defender. É óbvio que esse acontecimento deve ter desmotivado o docente e talvez feito com que perdesse o encanto pela nobre profissão.
Amigo leitor, estamos vivendo período obscuro na sociedade brasileira, com total inversão de valores. O professor que deveria ser a autoridade máxima em sala de aula, como antigamente era, passou a ter receio de alunos mal-educados, agressivos e até marginais. Não são raros os casos em que alunos fumam maconha durante as aulas, tanto no ensino médio como no superior. E perante tal descalabro, os docentes preferem não “perceber”, com receio de serem ameaçados, apanharem ou terem seus veículos destruídos.
Virou moda no Brasil se alardear “direitos”, mas não vejo a mesma ênfase quanto a “deveres”. Estudei em colégio público até completar o antigo ginasial. Me recordo, muito bem, que diretores e professores frisavam o que os alunos podiam e o que não deveriam se atrever a fazer em sala de aula. Diversos colégios particulares, até hoje, mantém políticas de ensino com regras rígidas e, não raro, as salas de aulas são equipadas com câmeras, que propiciam maior segurança e monitoram o comportamento dos jovens.
Dar limites aos filhos é uma prova de amor! Ninguém pode fazer tudo o que quiser; a vida não é assim. Portanto, os pais têm de ensinar isso a seus filhos desde cedo. Os pais têm de aprender a dizer “não” e os filhos a ouvir e acatar. Pais permissivos são tão ou mais prejudiciais para os jovens que aqueles demasiado severos e castradores. E pais se tornam permissivos porque abrem mão da função de educar, sob o pretexto de tolerância, modernidade ou que o Estatuto da Criança e do Adolescente tirou-lhes o poder de punir. Assim, jovens sem limites, normalmente, não têm futuro promissor, acabam se envolvendo com drogas, álcool, marginalidade, promiscuidade…
A vida do jovem sem limites se torna uma aventura, cujo final pode ser tudo, menos feliz.


Dê sua opinião