A cruz de Jesus

Era véspera de Natal, final de expediente na repartição. João se despediu dos amigos e saiu correndo, estava atrasado, ainda precisava alugar uma roupa de Papai Noel. Todos os anos um homem de sua família se veste de Papai Noel e aparece à meia noite...

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Era véspera de Natal, final de expediente na repartição. João se despediu dos amigos e saiu correndo, estava atrasado, ainda precisava alugar uma roupa de Papai Noel. Todos os anos um homem de sua família se veste de Papai Noel e aparece à meia noite para entregar presentes a todos os familiares. Neste ano seria sua vez e ele não queria decepcionar.  Andava apressado, em direção a loja de fantasias, quando escutou uma voz: “Por favor filho, me ajude!” Parou assustado e viu um homem idoso caído no chão. Teve a impressão que era um bêbado, seguiu seu caminho, mas o velhinho novamente suspirou: “Moço, por favor, eu preciso de você!”. João voltou e, ao se aproximar, notou que escorria sangue da cabeça do coitado; provavelmente, decorrente de um tombo no chão molhado. Pôde perceber, pelas lágrimas que caíam de seus olhos e pelas mãos trêmulas, que estava com medo. Quem sabe medo de morrer na véspera de Natal. João pensou: “O que fazer? Deixá-lo ali? Não seria justo. Pedir ajuda? Pra quem nessa hora?. E minha família que me espera… ainda preciso alugar a roupa de Papai Noel…” Resolveu levar o pobre homem ao hospital mais próximo. Depois pensaria na fantasia. Colocou-o no carro e saiu em disparada. Chegando ao pronto socorro, o velhinho foi colocado em uma maca. João relatou para a enfermeira de plantão sobre o possível tombo que a vítima sofrera na rua e, quando se despedia apressadamente, o idoso murmurou: “Não me abandone, estou com medo!” Por instantes, ficou paralisado olhando para aquele homem sozinho na maca. Então, abriu-lhe a mão e presenteou-o com um pequeno crucifixo que ganhara de sua falecida mãe e que carregava como proteção; consolando-o em seguida: “Ele vai estar sempre com você!”. O velhinho apertou com muita força a imagem do Senhor enquanto era levado para a sala de cirurgias. A enfermeira chefe pediu a João que ficasse enquanto era realizada a operação, pois as chances de sobrevivência eram mínimas e seria melhor ele esperar um parente do velhinho chegar. Algumas horas depois apareceu uma jovem chorando, que agradeceu João por ter socorrido seu pai. Infelizmente, ele não resistiu e morreu. João, visivelmente abatido, olhou para o relógio na parede da sala e notou que já era meia noite. Ficou decepcionado, tinha quebrado uma tradição de família. Como explicaria? Como encarar seus familiares? Principalmente sua esposa e seus filhos. Aproximando-se de sua casa, viu as luzes acesas e muita animação. Resolveu entrar pela porta dos fundos e mais tarde explicar a sua ausência. Ao entrar na cozinha foi surpreendido por sua esposa. Antes que ele se explicasse, ela o abraçou chorando e disse: “Parabéns querido, você esteve magnífico de Papai Noel. Seus filhos estão orgulhosos de você!”. João não entendeu nada. Pensou: “Como poderia eu estar aqui de Papai Noel se estava lá no hospital? Quem se vestiu no meu lugar?” A esposa beijou o marido e completou: “Meu amor, aqui está o crucifixo que você me pediu para guardar”


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