É possível usar drogas de forma “recreativa”, como disse a atriz Cléo Pires?

Em out/2016, Cléo Pires deu entrevista à revista “Veja Rio”, onde resolveu tocar em assuntos polêmicos, entre os quais sobre sua vida sexual, contando, então, que sente-se atraída pela cultura do BDSM (sadomasoquismo). Sua resposta, quando interpelada sobre o uso de drogas, é o tema deste artigo: “É óbvio...

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Em out/2016, Cléo Pires deu entrevista à revista “Veja Rio”, onde resolveu tocar em assuntos polêmicos, entre os quais sobre sua vida sexual, contando, então, que sente-se atraída pela cultura do BDSM (sadomasoquismo). Sua resposta, quando interpelada sobre o uso de drogas, é o tema deste artigo:

“É óbvio que já usei. Seria hipócrita se eu negasse, mas hoje só uso recreativamente”.

Inicialmente, acho importante decifrarmos essa frase polêmica da atriz.

Sou estudioso do tema drogas (lícitas e ilícitas) e dependência. Em meu primeiro livro, publicado em 1998, intitulado “Como Conviver com a Violência”, já tratava sobre esse assunto.

Na minha interpretação, Cléo Pires quis passar três mensagens:

1) No passado já usei drogas com mais frequência ou intensidade
2) Atualmente uso apenas de forma recreativa, ou seja, de vez em quando
3) Não sou dependente de drogas ou tenho controle sobre o uso e posso parar a hora que quiser

Será que é tão simples assim a possibilidade de alguém deixar de usar drogas?

Será que é possível ter um controle tal que se possa estabelecer o momento em que usar drogas para ter prazer e parar completamente quando assim decidir?

Para responder a essas difíceis perguntas, é preciso aprofundar o tema e estabelecer quais tipos de usuários de drogas existem:

1) Usuário Experimental: é o curioso, aquele que de tanto ouvir comentários e perceber que muita gente faz uso, em dado momento resolve experimentar. Pode também ser induzido por pressão dos amigos. Aos 15 anos tive vontade de experimentar cigarro. O sentimento era de plena curiosidade; a ideia era descobrir se era fácil acender, tragar, segurar e também em relação ao sabor. Após poucas tragadas, comecei a tossir fortemente e imediatamente decidi acabar com a experiência. Depois percebi que o cheiro do fumo tinha ficado em minhas mãos, roupas e cabelos, o que me trouxe mais ojeriza ainda. Mas é claro que muitas pessoas já sentiram prazer ou acharam divertido compartilhar o uso de cigarros.

2) Usuário Recreativo ou Social: nessa fase o usuário não é mais movido pela curiosidade e sim em sentir o prazer da substância, embora ocasionalmente. Vamos a alguns exemplos mais frequentes:

-Uso quando determinado grupo de amigos se reúne
-Festas e baladas
-Com namorado(a) que foi o(a) responsável em apresentar a droga pela primeira vez
-Encontros sexuais

3) Usuário Habitual ou Funcional:  recebe essa credencial quem sente falta dos efeitos das drogas no dia a dia e passa a fazer uso com frequência. Nesse estágio, a pessoa ainda “funciona” socialmente; cumpre seus compromissos familiares e de trabalho, mas de forma precária, e é claro, corre o risco de se tornar dependente a qualquer momento.

4) Usuário Dependente ou Disfuncional: usa drogas com frequência; nas suas relações afetivas e de trabalho já são observados sinais de ruptura. Geralmente, encontramos três sintomas:

a) Forte desejo de consumir substância entorpecente
b) Dificuldade de controlar o término da ingestão, ou seja, não consegue mais estabelecer a quantidade do entorpecente e o tempo de utilização
c) Surgem os efeitos da abstinência quando não está consumindo drogas

Durante anos, ao entrevistar usuários de drogas ilícitas, se apresentou um padrão bastante intenso, qual seja,  a maioria fez questão de registrar que usava de forma recreativa, ou seja, esporadicamente, e mesmo assim, em ambientes onde outras  pessoas também consumiam. São dois os argumentos que sustentam:

1) Consigo parar a hora que desejar

2) Não penso na droga de forma obsessiva

Especialistas e estudiosos em dependência química afirmam, categoricamente, que a principal armadilha das drogas reside no fato de o usuário sempre achar que é mais forte que a substância e por isso tem total controle sobre o consumo. Ledo engano!

Conversei com muitos usuários em estágio avançado que não admitiam em hipótese alguma a doença. Sempre com ar de soberba, no máximo concordavam estar passando por momento emocional difícil, mas que quando decidissem parar de consumir, conseguiriam tranquilamente.

Temos que ter em mente que é por demais tênue o limite entre o “uso recreativo ou habitual” e o vício.

Outro ponto que chama a atenção, é que o usuário “recreativo ou habitual” acaba tendo o seguinte pensamento:

“A droga que eu uso não gera dependência!”

Esse raciocínio é considerado MITO, ou seja, não é verdadeiro. A maconha, por exemplo, é uma droga com baixa incidência de dependência, mas é claro que tem potencial suficiente para viciar usuários. Estudos revelaram que 10% dos usuários de maconha tornam-se dependentes. Já os que consomem heroína, 90% deles acabam viciados na substância.

Outra questão que deve ser refletida, é que os “usuários recreativos e habituais” correm risco de desenvolver quadros psicóticos, de alucinações e delírios, colocando, assim, em xeque a saúde e segurança pessoal. Muitos acidentes fatais, e até práticas criminosas consideradas hediondas, ocorrem sob esses efeitos, que interferem com o raciocínio e o bom senso do usuário.

Fica mais fácil entender o que pensa o “usuário recreativo” quando a discussão é sobre drogas lícitas.

O leitor conhece alguém que usa cigarro recreativamente? Ou a maioria é usuário habitual ou dependente?

Sou radicalmente contra o tabaco. Quando, em conversas com amigos, explano sobre os riscos que seu uso traz para a saúde, é comum ouvir a seguinte afirmação:

 “Não se preocupe, não sou dependente de cigarro, uso muito pouco, só às vezes, para relaxar. Posso paro a hora que quiser”.

Não acredito nesse tipo de raciocínio, que, geralmente, é usado apenas como meio de defesa contra sermões sobre saúde.

Se alguém perguntar:

“Você bebe?”

A resposta mais comum é a seguinte:

“Sim…bebo socialmente”.

Se você indagar para alguém que pratica musculação, e que rapidamente aumentou o volume de massa muscular, se os resultados foram conseguidos à base de anabolizantes, a resposta mais frequente será:

“Claro que não, uso apenas suplemento alimentar e pego firme no treino”.

O presente assunto é por demais complexo e somente com informação precisa, clara e sem estigmatização é que o debate saudável acontece.

As drogas sempre foram consumidas em excesso. Mas vivemos um momento histórico mais crítico; a popularização levou à massificação. Bilhões de pessoas usam de forma descontrolada os mais variados tipos de drogas. A cada dia surge uma nova substância ou inventam maneiras diferentes de ingerir e de alcançar prazer mais rápido misturando várias substâncias.

O terreno fértil foi semeado pela valorização do consumo material, desintegração das relações familiares e humanas, inversão de valores éticos e morais; fatores que geraram vazio interior, baixa autoestima, distanciamento dos propósitos e ideais de vida, entre outras.

Para o desespero de Fernando Pessoa, se depender da sociedade atual, a alma será pequena.

Não escrevi este artigo com finalidade de criticar a talentosa atriz Cléo Pires, que, justificadamente, é modelo inspirador para grande parcela da juventude brasileira, mesmo porque, as sensibilidades emocionais e físicas são absolutamente personalísticas, e alguém como ela, absolutamente diferenciada em quase todos os aspectos, e para melhor, não se enquadra no espectro da maioria. Aproveitei, isso sim, o gancho da sua notoriedade e do relevante assunto que ela, oportunamente, trouxe à tona, para colocar o dedo na ferida e alertar sobre as armadilhas e riscos do chamado “uso recreativo ou meramente social” de drogas lícitas e ilícitas.

Ninguém pode negar que a capacidade de discernimento do usuário de qualquer substância entorpecente torna-se prejudicado.

Quanto mais se consome, mais os efeitos se aprofundam e o risco da dependência aumenta significativamente.

A brincadeira e o prazer momentâneo da recreação termina ao usuário atravessar linha quase que imperceptível e atingir outro degrau, o da dependência física e psicológica, quando, então, acaba a recreação e entra em cena doença incurável, que poderá, no máximo, ser controlada, geralmente, com tratamento médico e terapêutico, que deverá persistir para o resto da vida.


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