Lordello mostra que é possível prever crime e evitar que aconteça

Os fatos que vou narrar são reais e aconteceram com um executivo que saiu da empresa onde trabalhava às 19h30 e caminhava pela avenida Brigadeiro Faria Lima/SP numa terça feira nublada. Carregava nas costas uma mochila e em uma das mãos o smartphone. Como o...

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Os fatos que vou narrar são reais e aconteceram com um executivo que saiu da empresa onde trabalhava às 19h30 e caminhava pela avenida Brigadeiro Faria Lima/SP numa terça feira nublada.

Carregava nas costas uma mochila e em uma das mãos o smartphone. Como o trânsito era intenso, resolveu que iria atravessar na faixa de pedestres. No canteiro que divide as pistas, reparou em dois adolescentes que estavam separados por cerca de 15 metros mas que um olhava para o outro, como se trocassem sinais, e em seguida olharam para o lado da calçada em que o executivo se encontrava.

A luz ficou verde para os pedestres. Nesse interim, o homem escutou uma voz interna que sussurrava, insistentemente, dizendo:

“Não vá, não vá…”

A impressão é que esse tipo de chamado vem da parte mais profunda do ser, de um plano diferente das sensações fornecidas pelos cinco outros sentidos. Mas por não saber exatamente onde localizá-lo ou como funciona, podemos chamar simplesmente de sexto sentido.

Espontânea, surge com a rapidez de um raio. Sua clara certeza, porém, não se alicerça no raciocínio lógico, muito pelo contrário, muitas vezes entra em choque direto com ele.

Naquela fração de segundo, o executivo resolveu atravessar a rua, pois amigos o estavam esperando em um boteco nas proximidades. Ao atingir o canteiro que divide a avenida, foi abordado por um dos jovens que ameaçou-o com uma faca, arrancou-lhe o celular da mão e em seguida retirou sua carteira com todos os documentos e cartões magnéticos do bolso traseiro da calça. O outro comparsa retirou de suas costas a mochila, que continha notebook e laptop da empresa que trabalhava.

Intuição e sexto sentido são quase sinônimos. Pode-se dizer que a intuição faz parte do sexto sentido, que inclui também premonição, que é a capacidade de pressentir imagens futuras.

A vítima percebeu, de alguma forma, algo perigoso naquele local. Mesmo avisado por ferramentas mentais de prevenção, resolveu negá-las e assim se expôs ao risco de forma desnecessária.

Temos muitas vozes internas que abafam nossa intuição e a esse fenômeno chamo de negação. Mesmo sabendo que algo perigoso ou problemático possa nos acontecer, preferimos negar essa previsão, e na maioria das vezes, o que não desejamos, acaba acontecendo.

Medo é um mecanismo de nosso inconsciente criado para nos proteger. É um poderoso instrumento que pode nos alertar dos perigos. Poucas pessoas entendem a importância do medo e acabam sendo dominadas por ele, gerando, assim, problemas de ordem emocional, como síndrome do pânico, fobias, traumas e etc.

Não devemos deixar o medo nos dominar, mas sim fazer dele um instrumento de alerta precioso, que nos avisa dos perigos que estão ao nosso redor.

O medo é um bom empregado mas um péssimo patrão. Coloque-o para trabalhar para você e obtenha resultados favoráveis à sua segurança e bem estar.

O medo, às vezes, confunde-se com o que chamamos de “preocupação exacerbada” ou sem motivo aparente. Quando isso acontece, temos o “medo injustificado”, que nada mais é que o medo criado pela mente, fruto da imaginação. É como preocupar-se com a preocupação.

Há mais de 25 anos estudo e pesquiso o fenômeno da violência no Brasil e no mundo com o intuito de elaborar técnicas preventivas. Buda também se preocupou com o tema, quando deixou a seguinte lição de vida:

“As pessoas precisam aprender a enxergar e evitar perigos. Assim como um homem sábio se mantêm à distância de um cão raivoso, não devemos nos aproximar dos homens maus”.

A experiência como estudioso no assunto me fez concluir que as pessoas se tornam muito mais vulneráveis quando negam a possibilidade de serem vítimas da violência urbana; isso é o mesmo que tapar o sol com a peneira; não é a melhor estratégia. A distração e a imprudência levam à posição de risco.

Pessoas desatentas e desinformadas sobre os métodos de proteção contra o crime estão mais sujeitas ao perigo. Ser vítima da criminalidade não é um fenômeno de sorte ou azar. Os riscos podem ser evitados e o melhor caminho é a prevenção.

Somos capazes de prever comportamentos humanos ao nosso redor. Ocorre que prever comportamentos violentos é muito mais fácil que qualquer outra previsão.

Preste atenção nesse relato:

O vendedor M.C.L. estava no interior de seu carro Corolla, juntamente com sua namorada H.F., próximo ao fórum da Barra Funda/SP. Era verão, os vidros do veículo estavam abertos e os pombinhos trocavam carícias e observavam o inebriante luar. Dois jovens passavam pelo local quando ouviram alguns suspiros e perceberam que duas pessoas estavam dentro do carro estacionado embaixo de uma árvore.

Eles pararam por alguns segundos, observaram que a rua estava completamente deserta, sacaram de suas armas de fogo e com a maior facilidade acabaram com o prazer noturno do casal. Após ouvir a narrativa do assalto, fiz a seguinte indagação:

“Você não tinha calculado que ficar dentro do carro a essa hora da madrugada, numa rua deserta, era perigoso?”

A vítima, meio cabrunhada, afirmou:

“Claro que eu achava perigoso, mas não acreditava que pudesse acontecer comigo”.

Na verdade, o relato dessa vítima retrata o pensamento de muitas pessoas. Elas sabem que estão se expondo ao perigo ao realizar algum tipo de conduta, mas não acreditam na possibilidade de uma abordagem criminosa naquele momento.

É o que chamo de “Sentimento de Negação”, onde a pessoa, mesmo vislumbrando uma possibilidade de assalto, prefere “negar” que esse sentimento venha se transformar em realidade e  continua com sua conduta perigosa.


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