O POLICIAL SOBRE O FIO DA NAVALHA.

Me aposentei na polícia com muita dificuldade, após ser absolvido em alguns processos, onde figurei como réu por acusações de erros e práticas infundadas de abuso de autoridade. Gastei o que não podia com advogados, provei minha inocência, mas ao final, comemorei com a família o...

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Me aposentei na polícia com muita dificuldade, após ser absolvido em alguns processos, onde figurei como réu por acusações de erros e práticas infundadas de abuso de autoridade. Gastei o que não podia com advogados, provei minha inocência, mas ao final, comemorei com a família o merecido descanso, isso após 38 anos colocando a vida em risco para prender marginais e proteger a sociedade, que nunca me tratou com o devido respeito.

A pedido de minha esposa, fui fazer algumas compras no mercadinho perto de casa. Pela vidraça do estabelecimento, notei um jovem se aproximando de um homem de meia idade que estava se preparando para sair com sua motocicleta. A experiência de uma vida como policial, me fez sentir que algo de errado estava para acontecer.

Minha suspeita era verdadeira e foi confirmada quando, sorrateiramente, o marginal sacou um revólver da cintura e apontou para a vítima, que colocava o capacete.

Confirmada a flagrância do assalto à mão armada, pensei em agir, mas numa fração de segundos me veio à mente os processos na justiça e na corregedoria da polícia que tive que enfrentar, sozinho, e que me tiraram muitas noites de sono. Pensei no sofrimento da família, que nunca sabia ao certo se eu voltaria para casa quando estava trabalhando nos plantões policiais. Naquele instante, um velho jargão popular se fez presente:

              “ Quem muito pensa, nada faz ”.

Enquanto eu refletia sobre a cena criminosa, a vítima, assustada, entregou a moto sem reagir. O bandido, que muitas vezes é visto por alguns como vítima da sociedade, já em posse do bem, disparou contra o proprietário da motocicleta, tirando-lhe a vida. Mesmo de longe, consegui ver a placa da moto roubada e a direção tomada pelo latrocida. Ato contínuo avisei a polícia através do fone 190 sem me identificar, pois não deseja me comprometer na fatídica ocorrência.

Após terminar as compras, retornei a pé para casa. Durante o percurso, refleti se tinha agido corretamente ou se deveria ter tentado prender o marginal. Eu estava armado e, talvez, pudesse ter salvo a vida daquele homem. A dúvida se instalou em minha mente e a tristeza pela omissão invadiu meu coração. Mas ao abrir a porta de casa, fui recebido por minha filha, de 12 anos, que me abraçou e me encheu de beijos, enquanto a esposa terminava o almoço gostoso. Naquele momento, percebi que havia agido corretamente. Se tivesse tentado prender o bandido, muita coisa poderia ter acontecido:

  • Dependendo do desenvolvimentos dos fatos, poderia, até, ser também responsabilizado pela morte da vítima.
  • E se eu recebesse um tiro fatal, como ficaria meus familiares?
  • Se na troca de tiros viesse matar o bandido, provavelmente, receberia críticas contundentes da turma dos direitos humanos, principalmente se o bandido fosse menor de idade.
  • Minha arma de fogo seria apreendida para perícia, assim não teria mais como defender minha residência caso fosse invadida por ladrões.
  • E se porventura um de meus disparos acertasse alguém que estivesse passando pelo local naquele momento…? O risco de ser preso em flagrante por homicídio seria grande.

Eu estava lá, mas foi como se não estivesse.

Ao terminar a refeição, o policial aposentado trancou-se no quarto e ficou remoendo os fatos que presenciara através do vidro da mercearia e chegou à seguinte conclusão:

“ Tomara que, com o tempo, a maioria dos policiais em atividade não passem a também agir assim.”

Esse foi o desabafo de um profissional de segurança pública aposentado, que fez parte da instituição que quando perto incomoda e quando longe faz muita falta aos cidadãos de bem.

Caro leitor, não sei se o presente relato é verídico. Ouvi essa narrativa de um advogado, que leu em um blog que não apontava autoria.

Mas não importa se os fatos apresentados ocorreram ou não, o que realmente importa, é o risco que a sociedade corre de policiais vocacionados passarem a ter o mesmo raciocínio adquirido pelo profissional que se aposentou.

Ahhh, estava me esquecendo do último detalhe: depois daquele dia em que o policial aposentado achou por bem não revidar o assalto, teria chegado à conclusão que o melhor era não portar mais arma de fogo na rua!

JORGE LORDELLO


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