Relato dramático de uma vítima de seqüestro relâmpago

Em 1995, surgiu na vida da empresária Márcia Maria Pires Pereira uma oportunidade de trabalho em Bragança Paulista. Apesar de nunca ter sido vítima ou ter presenciado alguma violência, ela vislumbrava a vantagem de trocar a atribulação da cidade do Rio de Janeiro pela tranqüilidade...

382

Em 1995, surgiu na vida da empresária Márcia Maria Pires Pereira uma oportunidade de trabalho em Bragança Paulista. Apesar de nunca ter sido vítima ou ter presenciado alguma violência, ela vislumbrava a vantagem de trocar a atribulação da cidade do Rio de Janeiro pela tranqüilidade de uma cidade do interior paulista.

Mas, numa tarde de maio do ano passado, quando aguardava a saída do filho da escola, ela descobriu que a ordem das coisas tinha se invertido. Márcia passava batom com auxílio do espelho retrovisor de sua Parati quando foi abordada por um homem. Sem compreender o que ele tinha dito, abriu o vidro. O rapaz, que aparentava 25 anos, abriu a porta bruscamente e, com a mesma violência, empurrou Márcia para o banco do passageiro. “O que você quer?”, perguntou. “Sair daqui”, respondeu o rapaz, encaixando um revólver entre os dois bancos e colocando o veículo em movimento.

Apesar de muito nervoso, ele notou que o tanque estava quase vazio e parou num posto de gasolina na variante de acesso à rodovia Fernão Dias. Como Márcia estava sem dinheiro, esperou o frentista fazer a cobrança no cartão de dela e rumou para Atibaia. “Ele parecia um louco”, lembra Márcia, referindo-se à forma agressiva do assaltante dirigir. Ela procurou puxar conversa para acalmá-lo. O ladrão disse que tinha assaltado um banco em Extrema (distante 30 km de Bragança, no sentido contrário ao que trafegavam), houve perseguição e troca de tiros. “Acreditei, porque ele estava com os braços arranhados, como alguém que tinha se arrastado pelo chão”. A atitude compulsiva de coçar o nariz e a vermelhidão dos olhos denunciavam que estava sob o efeito de drogas. “A todo minuto ele passava a mão na arma. O cara <i>tava</i> no vale-tudo e não tinha nada a perder. Se a vida dele não vale nada, imagina a de outra pessoa. Eu rezava muito, pedindo pela minha vida.”

Em Atibaia, pararam num caixa eletrônico. Ele deu a ela um cartão que retirou de uma carteira de polícia e pediu para que sacasse R$ 200. “Essa aqui eu roubei de um delegado que baleei um pouco antes de pegar seu carro”, disse. Márcia alternava momentos de calma e de desespero. Ela o convenceu que, sem a senha, não seria possível sacar dinheiro, e usou o próprio cartão para isso. “Preciso fazer umas compras pra passar uns 30 dias escondido”.

Nova dúvida para Márcia: “Será que ele vai assaltar de novo?”. Rumaram para um hipermercado. “Algumas vezes, ele pedia opinião sobre alguns produtos. E pedia para eu pegar os que estavam no alto, para que o revólver, que estava preso na cinta, não aparecesse por baixo da blusa”. O celular dela tocava insistentemente.

Durante cerca de uma hora em que perambularem pelos corredores, Márcia teve ímpetos de sair correndo. “Mas pensei que ele ia atirar em mim pelas costas e, pior, poderia acertar outras pessoas”. Três carrinhos enfileirados com um “monte de porcaria” – balas, salgadinhos, chocolates – e Márcia se descontrola: “Dá prá passar logo as compras?” berrou com a moça da caixa, que culpou o ‘marido’ pela demora para empacotar tudo. “Ele não é meu marido!” gritou novamente.

O rapaz pediu para que ela se acalmasse e pagasse a conta com o cartão do banco. O celular voltou a tocar. Já estava escuro. Ela disse que poderia ser o filho e pediu para atender. “Diga que você está na estrada, o pneu furou e que você já vai chegar”. Ela cumpriu a ordem e pediu para levarem o filho para a casa de uma amiga. Márcia falar novamente que rezava muito. “Apesar de assustada, sentia-me envolvida num escudo de proteção espiritual.” Pediu para ficar no estacionamento. “Claro que não”.

De volta a Fernão Dias, seguiram rumo a São Paulo. Márcia insistiu para que ele a libertasse, afinal ele só queria o carro e já podia sumir. Ele entrou no bairro Terra Preta, às margens da rodovia, no município de Mairiporã. “Agora, acabou a minha vida”, pensou. Ele parou num posto, pediu o celular dela e recusou a bolsa. Quando ela desceu, ele a puxou pela gola do moleton e, de rosto quase enconstado no dela, deu a última ordem: “Até agora você colaborou. Fica aqui meia hora que o seu carro vai voltar. Se se mexer, volto pra acabar com você.”

Márcia ficou cerca de uma hora imóvel, sob o olhar indiferente dos dois frentistas. Uma viatura de polícia passou várias vezes em frente ao posto, mas ela não ousou desobedecer as ordens. “E se a polícia resolve persegui-lo e acontece um tiroteio?”, justificou-se. Pediu orientação a um frentista e foi até uma farmácia para usar o telefone. Contou a história para uma amiga e pediu para que ela fizesse contato como marido e que ligasse para ela. O proprietário da farmácia a pôs para fora. “Não quero encrenca no meu estabelecimento”, gritou. Sem saber o que fazer, Márcia voltou ao posto. Minutos depois, uma funcionária da farmácia a chamou e ela pôde conversar com o marido, que foi apanhá-la. Ela esperou mais uma hora e ainda teve que convencê-lo da veracidade da história.

O prejuízo financeiro foi só o celular, ‘novinho, último tipo’. O banco ressarciu o saque e a despesa no hipermercado e o seguro cobriu o valor do automóvel, encontrado sete meses depois depenado numa favela em São Paulo. Ela tem uma forma própria de encarar o ocorrido. “A morte esteve próxima. Minha fé em Deus aumentou e. depois daquilo, não perco oportunidades.” A escola contratou seguranças para os horários de entrada e saída de alunos. O ladrão voltou a cometer um seqüestro relâmpago e foi identificado pelo delegado que o baleou, por Márcia e pela outra vítima. É Marcelo Raposo, o “Raposão”, de 28 anos, com longa ficha criminal e já condenado. Está foragido.

Por Ricardo José de Oliveira/Cosmo Bragança Paulista


Dê sua opinião