A CIDADE QUE JÁ NÃO É MAIS TÃO MARAVILHOSA.

                                               “Deus é brasileiro” Qual a origem dessa expressão?   Acredito que essa frase popular contaminou o espírito brasileiro em razão do monumento do Cristo Redentor, que retrata Jesus Cristo e fica no bairro de Santa Tereza, Rio de Janeiro, no topo do...

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                                             “Deus é brasileiro”

Qual a origem dessa expressão?

 

Acredito que essa frase popular contaminou o espírito brasileiro em razão do monumento do Cristo Redentor, que retrata Jesus Cristo e fica no bairro de Santa Tereza, Rio de Janeiro, no topo do morro do Corcovado. Foi inaugurado em 13 de outubro de 1931, dia de Nossa Senhora Aparecida.

A expressão “Deus é brasileiro” também está atrelada às belezas e riquezas naturais que temos em nosso país.

Na época, a confiança do povo brasileiro era grande num futuro melhor. Não precisamos nos preocupar com o futuro, todos diziam; Deus é nosso compatriota e protetor. Será?

E a expressão “Cidade Maravilhosa”, quando surgiu?

O primeiro registro na imprensa carioca ocorreu em 16.02.1904, no jornal “O Paiz”, em pleno carnaval. A matéria falava sobre um determinado carro alegórico que criticava as carrocinhas da prefeitura que recolhiam cachorros de rua, com os seguintes versos:

Esta gaiola bonita

Que ahi vai sem embaraços

É a invenção mais catita

Do genial Dr. Passos

As ruas de ponta a ponta

Subindo e descendo morros

Por onde passa da conta,

Dos vagabundos cachorros.

Agarra! Cerca! Segura!

— Grita a matilha dos guardas —

Correndo como em loucura

Com um rumor de cem bombardas.

Terra sempre em polvorosa

Bem igual no mundo inteiro,

Cidade maravilhosa!

Salve, Rio de Janeiro!”

No jornal “A Notícia”, em sua edição de 20.03.2103, foi publicada crônica intitulada “A Cidade Maravilhosa”, sobre como a cidade ficara bonita após reformas urbanísticas.

“ Cidade Maravilhosa! É a exclamação de todos que nos visitam. A cidade progride e avança; toma o mar e toma as montanhas, e estende-se para as costas, varando as rochas. Ainda não temos os caminhos subterrâneos, mas para lá caminhamos aceleradamente. E quando a cidade tiver tudo isso, quando ela não construir os seus palácios apenas na planície, mas os levar para as montanhas, quando ela habitar também os [sic] ilhas encantadoras de sua refulgente ahia e o mar se encher de elegantes yachts, como hoje as avenidas se enchem de automóveis, então ela poderá desafiar as que mais belas o forem. Ela já é a cidade maravilhosa.”

hino do Rio de Janeiro, chamado “Cidade Maravilhosa”, é uma marchinha  composta por André Filho e arranjada por Silva Sobreira para o Carnaval de 1935. Se tornou o Hino da cidade do Rio de Janeiro e tem a seguinte letra:

 

rio de janeiro

Cidade maravilhosa
Cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa
Coração do meu Brasil

Cidade maravilhosa
Cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa
Coração do meu Brasil

Berço do samba e de lindas canções
Que vivem n’alma da gente
És o altar dos nossos corações
Que cantam alegremente

Cidade maravilhosa
Cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa
Coração do meu Brasil

Cidade maravilhosa
Cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa
Coração do meu Brasil

Jardim florido de amor e saudade
Terra que a todos seduz
Que Deus te cubra de felicidade
Ninho de sonho e de luz

Cidade maravilhosa
Cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa
Coração do meu Brasil

Cidade maravilhosa
Cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa
Coração do meu Brasil

Meses antes do início das Olimpíadas no RJ, em agosto/2016, a cidade passou por uma série de obras importantes e algumas “maquiagens” para que o turista estrangeiro levasse boa imagem da “cidade maravilhosa”. Até painéis de acrílico foram instalados nas margens da Linha Vermelha, principal acesso ao Aeroporto Internacional Tom Jobim, com adesivos que faziam referências a pontos turísticos cariocas e também para diminuir a visão de favelas do Complexo da Maré, uma das mais violentas do Rio de Janeiro.

Milhares de policiais das esferas municipal, estadual e federal patrulharam as ruas e avenidas cariocas, tentando minimizar riscos de assaltos e balas perdidas. Em praticamente todos os tradicionais pontos turísticos era visível a presença de policiais militares, civis, Guarda Municipal, Força Nacional, Exército, Marinha e Aeronáutica. Nas praias mais badaladas, como Copacabana e Ipanema, a presença de helicópteros e barcos da Marinha também foi frequente.

Mas o que aconteceu após o término dos Jogos Olímpicos?

Boa parte dos policiais foram embora e a “maquiagem” passou a derreter com o passar dos meses.

A corrupção começou a ser escancarada com a prisão do ex-governador e sua esposa, em novembro/2016. Eles foram alvos da Operação Calicute, um desdobramento da Lava Jato, que está investigando fraudes em licitações e desvios milionários em várias obras do Rio.

De lá para cá, o Rio de Janeiro virou palco, diariamente, de más notícias, principalmente nas páginas policiais.

Nos sete primeiros meses de 2017, quase 700 pessoas foram vítimas de balas perdidas. Pelo menos 70 morreram.

A insegurança na “cidade maravilhosa” passou a não ter mais endereço.

Quase 90 policiais foram mortos por bandidos, somente no primeiro semestre, número superior às mortes registradas no ano de 2016.

As Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), foram perdendo força por falta de recursos e aparelhamento.

Para complicar esse quadro caótico, veio o atraso dos salários dos servidores estaduais.

As empresas de transporte de carga que prestam serviços no Rio, ameaçaram em julho/2017 paralisar as entregas no Estado se os roubos a caminhões não forem contidos. Em 2016 os prejuízos foram em torno de R$ 1 bilhão. A estimativa para este ano é um acréscimo de 30% nas perdas financeiras. Por isso, boa parte dos produtos nas prateleiras das lojas cariocas subiram de preço absurdamente.

Até a área nobre da zona sul do Rio foi afetada. Centenas de restaurantes, bares e pequenos comércios fecharam as portas. O que mais se vê são placas de vende-se e aluga-se.

O medo fez a movimentação, principalmente à noite, nos bairros de Copacabana, Ipanema, Leblon, Flamengo, Botafogo e Barra, diminuir sensivelmente. A falta de manutenção e iluminação das ruas e avenidas também é gritante.

Portanto, a cidade do Rio de Janeiro só continua maravilhosa pela pequena janela do avião.

Ao se aterrissar em solo carioca, a perspectiva é outra, pois vem à tona a realidade do medo da violência urbana, o risco da bala perdida encontrar pessoa de bem, os comentários à boca pequena do descrédito com as instituições governamentais e tantos outros problemas que tiraram um pouco da alegria natural e da autoestima do carioca.

A conclusão de que o Rio de Janeiro já não é mais uma cidade tão “maravilhosa”, não é somente deste escritor paulista e sim de grande parte, se não a maioria dos cariocas. Particularmente as muitas dezenas dos que conversaram comigo recentemente, disseram não encontrar mais motivos para enaltecer a cidade onde residem.

Poderia o leitor questionar o fato que este escriba talvez não devesse opinar sobre o Rio, pois que não é seu berço.

Realmente, não nasci na São Sebastião do Rio de Janeiro, mas ela é a segunda cidade do todo brasileiro não carioca. É de todos nós, temos todos carinho por ela; a admiramos, a desejamos. Quantos de nós não passaram ou tiveram vontade de passar lua de mel, feriados, férias e tantos outros momentos felizes que requerem lugares especiais? Quantos de nós, ufanistas, não a colocamos como a mais linda frente a todas as outros do universo? É nossa, muito nossa, e devemos sim, todos os brasileiros, protegê-la da incompetência, da incúria e da desonestidade dos que a administraram nesses tempos sombrios.

JORGE LORDELLO

 


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