A QUEDA NA QUALIDADE DAS LETRAS DA MAIORIA DAS MÚSICAS BRASILEIRAS DEMONSTRA O TRISTE ESTÁGIO ATUAL DE NOSSA CULTURA.

Meus avós contavam como era a cidade de São Paulo nas décadas de 30, 40 e 50. Lembravam, com nostalgia, do modo de vida de então; das limpas e arrumadas ruas, que não tinham vestígios de pichação; do comportamento das pessoas e do ambiente cultural...

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Meus avós contavam como era a cidade de São Paulo nas décadas de 30, 40 e 50. Lembravam, com nostalgia, do modo de vida de então; das limpas e arrumadas ruas, que não tinham vestígios de pichação; do comportamento das pessoas e do ambiente cultural que por aqui se encontrava. Na minha infância ainda conheci um pouquinho, um restinho dessa São Paulo. Outras cidades brasileiras tinham também perfil diferenciado do atual, lógico que para melhor.

Tínhamos, nós da “terra brasilis”, o privilégio de portar traços culturais do velho mundo, isso em virtude da forte imigração, como bem prova o patrimônio arquitetônico que herdamos da época, particularmente São Paulo e Rio de Janeiro. As pessoas, mesmo as humildes, eram elegantes frente aos padrões atuais. As damas, quase sempre em cima de seus saltos altos, cujo som ao tocar no piso das calçadas ecoava ao longe e os cavalheiros, vestidos sobriamente, de blazer, representavam o figurino mais comum.

Mas o Brasil fica na América, no novo mundo, portanto, tínhamos também a modernidade. São Paulo já mostrava vocação para a industrialização, que se fortaleceu no pós guerra, atingindo grau extraordinário com o advento da indústria automobilística.

Puxa vida, estávamos com tudo: educados e indo para o progresso a passos largos. Nossa cultura já tinha face própria; a literatura, a poesia, a arquitetura, a música……uau, nossa música era o máximo, era a boa poesia musicada. Sem ufanismo, realmente fazíamos, num período, talvez a melhor música do mundo.

Poucas décadas se passaram e o que sobrou para nossa geração foi a nostalgia, a saudade, só que, diferentemente de meus avós, que vivenciaram uma boa época, nós estamos saudosos do quase; do quase grande país desenvolvido, que acabamos nunca vendo, do quase país com justiça social, que estão nos devendo e do quase povo educado e bem formado que sonhávamos ser.

Fizemos péssimas escolhas, melhor dizendo, os que nos representaram fizeram, particularmente na área educacional, que reputo ser a mais importante porque é o alicerce, porque é essencial e, lamentavelmente, foi onde mais erramos; a qualidade foi substituída, tristemente, pela quantidade.

Através das letras de músicas famosas que marcaram os respectivos períodos, temos um bom exemplo de nossa perda cultural”.

Década de 30:
Tu és divina e graciosa, Estátua majestosa do amor
Por Deus esculturada.
És formada com o ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida
É a preferida pelo beija-flor….”

Década de 40:
“A deusa da minha rua
Tem os olhos onde a lua
Costuma se embriagar.. Nos seus olhos, eu suponho,
Que o sol, num dourado sonho
Vai claridade buscar ”

Década de 50:

” Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça.
É ela a menina
Que vem e que passa
Num doce balanço
A caminho do mar.
Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema.
O teu balançado é mais que um poema.
É a coisa mais linda que eu já vi passar.”

Década de 60:
“ Nem mesmo o céu
Nem as estrelas
Nem mesmo o mar
E o infinito
Não é maior que o meu amor
Nem mais bonito.
Me desespero a procurar
Alguma forma de lhe falar
Como é grande o meu amor por você….”

Década de 70:

” Foi assim como ver o mar a primeira vez
Que os meus olhos se viram no teu olhar

Quando eu mergulhei no azul do mar
Sabia que era amor
E vinha pra ficar….”

Década de 80:

” Fonte de mel, nos olhos de gueixa, Kabuki máscara.

Choque entre o azul e o cacho de acácias, luz das acácias, você é mãe do sol. Linda….”

Década de 90:*

” Bem que se quis, depois de tudo ainda ser feliz.

Mas já não há caminhos pra voltar.

E o que é que a vida fez da nossa vida?

O que é que a gente não faz por amor? ”

2001:

Tchutchuca!
Vem aqui com o teu Tigrão.
Vou te jogar na cama
E te dar muita pressão!
Eu vou passar cerol na mão
Vou sim, vou sim!
Eu vou te cortar na mão! Vou sim, vou sim!
Vou aparar pela rabiola! Vou sim, vou sim”!

2002:

” Só as cachorras!
Hu Hu Hu Hu Hu!
As preparadas!
Hu Hu Hu Hu!
As poposudas!
Hu Hu Hu Hu Hu! ”

2003:

” Pocotó pocotó pocotó…minha éguinha pocotó! ”

2004:

” Ah! Que isso? Elas estão descontroladas!

Ah! Que isso? Elas Estão descontroladas! Ela sobe, ela desce, ela da uma rodada, elas estão descontroladas! ”

2005:

” Hoje é festa lá no meu ap, pode aparecer, vai rolar bunda lele! ”

 

2006:

” Tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha!!!

Calma, calma foguetinha!!!

Piriri Piriri Piriri, alguém ligou p/ mim! ”

2010:

” Chapeuzinho pra onde você vai, diz aí menina que eu vou atrás.
Pra que você quer saber?
Eu sou o lobo mau, au, au
Eu sou o lobo mau, au, au
E o que você vai fazer?
Vou te comer, vou te comer, vou te comer,
Vou te comer, vou te comer, vou te comer…

2017:

“ Olha a explosão
Quando ela bate com a bunda no chão
Quando ela mexe com a bunda no chão
Quando ela joga com a bunda no chão
Quando ela sarra e o bumbum no chão, chão, chão, chão ”

E 2018 promete, pois Janeiro nem terminou e duas músicas estão bombando na internet e bailes pelo Brasil:

1) “ Que tiro foi esse, viado?
Que tiro foi esse que tá um arraso?!
Que tiro foi esse, viado?
Que tiro foi esse que tá um arraso?! ”

2) “ Só uma surubinha de leve
Surubinha de leve
Com essas mina maluca
Taca a bebida
Depois taca e fica
Mas não abandona na rua…”

Para finalizar, reproduzo a entrevista que dei a Chico Barney para o Portal UOL, em 18.01.2018:

 

“É reprovável”, diz Doutor Segurança sobre “Que Tiro Foi Esse?”

1) O grande hit do verão é “Que tiro foi esse”, canção de Jojô Toddynho cuja coreografia remete ao ato de ser alvejado por uma bala perdida. Há quem diga que trata-se de uma apologia ao crime. Também existe a interpretação de que é um jeito bem humorado de tirar o peso do cotidiano violento do brasileiro. Qual a sua opinião a respeito?

LORDELLO: Aprendi com meus pais e com minha formação em direito, que “ com coisa séria não se brinca e nem se faz chacota ”.

Refiro-me, particularmente, ao fenômeno da banalização da violência no Brasil nos últimos anos.

Banalizar é tratar assunto sério, que neste caso específico, afeta a vida das pessoas e a ordem social, como algo de somenos importância.

Sou absolutamente contra a censura cultural, mas temos que avaliar todos os aspectos envolvidos nessa questão, inclusive se a letra, de alguma forma, invade a legislação penal.

Quando uma música é por demais repetida nos meios de comunicação, e música é uma mensagem para a grande massa populacional, tanto que toda nação tem um hino, é bem provável que seu refrão seja repetido e, por vezes e por determinadas e mal formadas pessoas, pode ser estímulo a algo bom ou ruim, dependendo do contexto e do conteúdo. No meu entender, no mínimo, essa música é reprovável porque aceita como normal a violência que existe e prospera em nosso país.

Aos poucos, a sociedade passou a ser mais tolerante com o criminoso, gerando, assim, o fenômeno da “ banalização da violência ”.

Recentemente, no Rio de Janeiro, terra natal da cantora Jojô Toddynho, em junho/2017, a grávida Michele dos Santos, com 25 anos de idade, foi atingida no tórax por bala perdida quando voltava de exame pré-natal em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Socorrida ao Hospital da Posse por uma amiga que a acompanhava, os médicos optaram por fazer um parto de emergência, mesmo com a gestação prematura. A criança nasceu com 1.3 kg mas logo veio a falecer. Qual será a opinião da mãe sobrevivente sobre a canção de Jojô, que já virou Hit no Brasil.

2) O Sr. tem algum alerta a fazer sobre os jovens que estão fazendo vídeos brincando com a música? 

LORDELLO: Repito que sou contra a censura prévia sob qualquer aspecto. Os jovens têm que obter dos pais e do Estado formação que lhes permita fazer boas escolhas para se tornarem boas pessoas para si próprios e para a sociedade.

Sou favorável a letras de músicas que contestem o que estiver errado; é uma linguagem, uma forma de comunicação, para isso geramos consciência política, principalmente para nossos jovens. No entanto, a lei deve ser aplicada sempre que for transgredida, sem disciplina não se faz uma nação forte e em paz.

3) Outra música vem causando polêmica nas redes sociais: “Surubinha de leve” referências explícitas ao estupro e outras agressões sexuais. Gostaria que o senhor discorresse sobre o tema.

LORDELLO: Sou especialista em segurança e não em música, mas tenho a impressão que o Funk original foi desvirtuado para letras cada vez mais apelativas e empobrecidas. A música “surubinha de leve”, que tive o desprazer de ouvir, é mais um exemplo latente de banalização do sexo em nosso país. A conclusão é que temas importantes, que deveriam ser discutidos exaustivamente de forma responsável, estão sendo colocados todos no mesmo panelaço, o da banalização.

4) Existe alguma música segura para os jovens ouvirem neste verão? 

LORDELLO: A diversidade cultural é importante, faz parte da formação. Quando bem formada, a pessoa adquire censo crítico para discernir o certo do errado. Não cabe determinar o que alguém deve ouvir, somente podemos orientar e aconselhar.

5) Com tantos perigos rondando a juventude nesta temporada, quais atitudes o senhor recomendaria para quem tem filhos?

LORDELLO: O problema é complexo e tem a haver com os novos modelos de educação, que ainda não estão totalmente consolidados.

Infelizmente, estamos vivenciando também a banalização da educação familiar, onde filhos, muitas vezes, mandam e pais obedecem.

Faz tempo que não ouço algum jovem dizendo que tem horário para voltar para casa ou que está proibido de ir em tal festa pois o ambiente não é conveniente. Crianças e adolescentes estão fazendo uso de cigarro, bebida alcoólica e drogas e muitas famílias aceitam ou fingem que não estão vendo, pois perderam grande parte da autoridade sobre os filhos.

JORGE LORDELLO


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