ARMA DE CHOQUE É BOA OPÇÃO PARA DEFESA PESSOAL DE MULHERES?

Nos últimos 15 dias 4 amigas me procuraram para fazer a seguinte pergunta: “ Lordello, estou querendo comprar uma arma de choque para minha proteção, você recomenda? ” Como sou estudioso sobre violência urbana, a primeira conclusão que tirei ao conversar com essas mulheres é...

1323

Nos últimos 15 dias 4 amigas me procuraram para fazer a seguinte pergunta:

“ Lordello, estou querendo comprar uma arma de choque para minha proteção, você recomenda? ”

Como sou estudioso sobre violência urbana, a primeira conclusão que tirei ao conversar com essas mulheres é que estão muito preocupadas com a possibilidade de serem vítimas de assalto ou estupro. Esse receio ou até mesmo medo, fez com que pensassem na tal arma de choque como alternativa de defesa.

Percebi que elas pouco entendiam sobre esse equipamento de defesa e sua utilidade prática. Acreditavam ser possível provocar desmaio num possível agressor e assim escapar do risco de agressão, o que não é verdade. Para esclarecimentos, resolvi escrever este artigo.

Encontramos no mercado legal e ilegal dois tipos de “armas de eletrochoque”:

1) De Contato, conhecida também como Stun Gun: o tamanho equivale ao de um aparelho celular; em uma das extremidades possui em média de 6 a 10 pinos metálicos por onde é descarregada a energia elétrica. Do outro lado tem um gatilho que faz o acionamento. Funciona geralmente com duas baterias de 9 volts. Quando acionado, é comum se ouvir um barulho estridente. Para que tenha efeito no oponente, o usuário terá que encostar no corpo do agressor a extremidade por onde é emitida a descarga elétrica.

Mas qual o resultado efetivo?

O mais comum é que ocorra um susto provocado pelo choque elétrico no corpo. Por reflexo, o agressor se afastará um pouco e assim cessará o efeito do aparelho de eletrochoque.

Mas o que de efetivo acontece com o agressor ao receber a descarga elétrica?

Pode ocorrer um incomodo na região atingida, no máximo dormência momentânea, mas que não vai impedir nova investida do agressor, se assim ele desejar, pois perceberá que a arma não provoca grandes danos nem imobilização temporária.

Vamos a mais uma dúvida que pode estar surgindo na mente do leitor neste momento!

Entendi que tal equipamento de defesa não tem o condão de paralisar possível agressor, mas pelo menos é melhor do que estar de mãos vazias, não acha Lordello?

Definitivamente a resposta é não. A mulher que adquirir essa arma de eletrochoque, possivelmente, terá que transportá-la na bolsa. Partindo do princípio que toda abordagem de assaltante ou estuprador é feita de surpresa, ou seja, a vítima é pega desprevenida, ela não teria tempo hábil de abrir a bolsa, procurar o equipamento e acionar o choque elétrico.

Conclusão: não vejo nenhum utilidade na aquisição desse equipamento, muito pelo contrário, pode ser perigoso seu porte, porque promove falsa sensação de segurança e incentiva reação, aumentando o risco de ser ferida gravemente ou morta pelo oponente.

Procurei na internet e achei diversos anúncios oferecendo o seguinte equipamento:

APARELHO DE CHOQUE PARA DEFESA PESSOAL

CARACTERÍSTICAS:

  • Super tensão de Pulso para proteção;
  • Possui lanterna embutida;
  • Ideal para defesa pessoal, usada por policiais, agentes de segurança e pessoas que necessitam se defender contra agressores;
  • Acompanha interruptor de segurança para impedir descarga acidental;
  • Bateria interna recarregável;
  • Leve, compacto e fácil de usar;
  • Tensão de descarga elétrica: 24.000.000 volts;
  • Tensão de entrada: 110-240V (bi-volt);
  • Dimensões e peso: 16,5cm x 4,8cm x 2,8cm, 125 g

A propaganda ainda explica como utilizar a arma de choque:

  • Mova a telca on/off (que fica na lateral do aparelho) para posição on para ligar o aparelho;
  • O led ficará vermelho, indicando que o aparelho está pronto para uso;
  • Com o aparelho destravado, basta apertar o botão vermelho que sua máquina de choque emitirá uma centelha entre seus dois eletrodos e produzirá um alto ruído, característico da descarga elétrica;
  • Ao encostar o aparelho no agressor, tanto a centelha quanto o ruído deixarão de ser emitidos. Isso significa que o agressor está sendo eletrocutado;
  • O contato do parelho durante 1 segundo causará dor e paralisia momentânea no local atingido;
  • O contato do aparelho por 6 segundos, ou mais, paralisará o agressor, fazendo com que perca o equilíbrio e fique desorientado;
  • Importante: este aparelho serve para defesa pessoal. É aconselhado fugir do agressor a partir do momento que for paralisado. Quando o aparelho fica em contato por mais de 6 segundos e derruba o agressor, ele se recuperará em cerca de 10 segundos.

Para escrever este artigo e passar ao leitor a experiência na prática de seu uso, testei a arma de eletrochoque, que é vendida pela internet:

  • Após o acionamento do aparelho notei que o barulho é estridente.
  • A primeira reação é um susto, o que faz se afastar um pouco da pessoa que está operando a máquina.
  • Ao permitir que o equipamento encostasse no meu corpo, senti, inicialmente, leve incômodo, que provocou que eu desse um passo para traz. No momento em que o aparelho não mais estava em contato comigo, perdeu totalmente a eficácia, restando apenas o barulho estridente.
  • Se minha intenção fosse agredir fisicamente ou praticar algum crime contra a pessoa escolhida, confesso que o aparelho não iria me fazer desistir ou intimidar.

A lanterna de choque pode matar?

Primeiramente, é importante dizer que muitas das armas de choque vendidas na internet, camelôs e algumas lojas, são contrabandeadas, principalmente da China e não trazem especificações corretas do produto. Profissionais da área de engenharia elétrica alegam que alguns desses equipamentos possuem tensão demasiadamente alta e podem colocar em risco a integridade física e até a vida de quem for atingido, gerando parada cardíaca.

2) Taser Gun de IEM (interrupção elétrica intramuscular): o formato assemelha-se a uma pistola. Possui 2 eletrodos ligados a dois fios de cobre que podem ter quatro, seis, oito ou dez metros. Ao acionar o gatilho, a pistola Taser lança os dois eletrodos, que ao atingir a vítima aplicam descarga elétrica por 5 segundos, imobilizando o alvo. Após esse tempo, mantendo-se pressionado o gatilho, uma descarga é disparada a cada 1,5 segundo. Após o disparo, os eletrodos e os fios devem ser descartados e substituídos por outros.  Esse poderoso equipamento tem como função imobilizar o oponente, independente da resistência à eletricidade do alvo e da área atingida, pois devido à descarga ser intramuscular, age direto no sistema nervoso central, fazendo com que o  alvo vá ao solo ficando na posição fetal. Após alguns segundos, a pessoa atingida volta a ter os movimentos normais. Nesse período que esta imobilizada, ou seja, sem possibilidade de reação, a pessoa pode ser algemada com as mãos para traz e assim totalmente dominada.

 

COMO FUNCIONA NA PRÁTICA A ARMA TASER?

  • Inicialmente, o usuário deve acoplar um cartucho que contém os eletrodos e fios de cobre que conduzirão a descarga e também uma cápsula de nitrogênio comprimido, responsável pelo disparo dos projéteis.
  • Ao fazer o disparo, o circuito eletrônico faz com que o nitrogênio comprimido saia rapidamente da cápsula, criando a pressão necessária para que os eletrodos sejam disparados contra o agressor. Rebarbas presentes nos eletrodos impedem que o oponente retire-os facilmente do corpo.
  • A pistola possui uma trava, que é usada para interromper a descarga elétrica no oponente a qualquer momento.

Há 5 anos, participando de um programa na RedeTV, aceitei ser atingido pela arma Taser; vou dividir com o leitor essa experiência:

  • O instrutor responsável pela empresa que importa este equipamento disse, inicialmente, que ao ser atingido pelos eletrodos eu automaticamente iria cair ao solo.
  • Foi colocado no piso do estúdio um colchão para que eu não me ferisse na queda. Mesmo assim, fui orientado a ficar ajoelhado, para evitar tombo, tendo em vista que tenho quase dois metros de altura.
  • Numa distância de cerca de 5 metros, o instrutor apontou a pistola taser para minha região abdominal. Ao fazer o disparo, dois eletrodos me atingiram na virilha, penetraram o tecido do terno e atingiram a pele.
  • Recebi rápida descarga elétrica e em fração de segundos caí no colchão.
  • Permaneci imóvel por alguns segundos, não sei precisar quantos.
  • Acredito que em nenhum momento perdi a consciência, mas percebi que estava inerte, deitado no colchão sem não conseguir mexer braços e mãos.
  • Após alguns segundos, retomei os movimentos do corpo e me levantei.
  • Em seguida, senti formigamento em quase todo o corpo, que perdurou por quase meia hora.
  • A conclusão, é que após o disparo da arma de eletrochoque Taser eu poderia ser facilmente dominado e algemado ou a pessoa que atirou em mim poderia fugir facilmente que eu não conseguiria ir atrás

 

A ARMA TASER PODE MATAR?

A arma Taser Gun de IEM(interrupção elétrica intramuscular) é considerada arma menos-letal e jamais não-letal. Fabricantes dizem que as poucas mortes ocorridas com a utilização do Taser se deram em razão do mal uso do equipamento. De qualquer forma, encontramos notícias de mortes no Brasil e em outros locais do mundo em razão da utilização do Taser. O médico carioca Marco Antônio Araújo, explica que, do ponto de vista cardiológico, um choque, mesmo baixo, de cerca de 50 miliampères, pode causar parada cardíaca ou levar a uma arritmia fatal, ele diz: “O coração tem um ciclo elétrico e é comandado por marcapassos fisiológicos. Se um estímulo elétrico for aplicado no final desse ciclo, o coração pode fibrilar, que é quando perde a função de bombear de modo eficaz o sangue ou parar. Nesses casos, o socorro precisa ser imediato”..

QUAL A LEGALIDADE, NO BRASIL, DESSES DOIS EQUIPAMENTOS DE ELETROCHOQUE E QUEM PODE ADQUIRI-LOS?

As armas de incapacitação neuromuscular(pistola taser) que utilizam a projeção à distância de seus contatos com o corpo do agressor são proibidas de comercialização para o cidadão comum, sendo utilizadas apenas por entidades civis ou militares sob autorização do Exército brasileiro.

O Regulamento para Fiscalização de Produtos Controlados (R-105), instituído pelo Decreto Federal 3.665, de 20 de novembro de 2000, relaciona os produtos que são controlados pelo Exército. A portaria número 17 do Departamento Logístico do Exército inclui na lista de produtos controlados as armas de choque elétrico de lançamento.

Já o aparelho de choque de contato direto com o agressor tem sua comercialização legalizada no Brasil. É claro que sua utilização só deverá ocorrer em casos de legítima defesa. Se usado incorretamente, o usuário poderá responder criminalmente por lesão corporal dolosa.

JORGE LORDELLO


Dê sua opinião