Condomínios: quando não se faz a lição de casa, é mais fácil colocar a culpa nos porteiros

Morador de prédio de classe média-alta do bairro de Moema/SP fez desabafo no Facebook logo após chegar em seu apartamento e encontrar a porta arrombada. O crime aconteceu recentemente e passo a transcrever o relato da vítima: O denunciante colocou a responsabilidade apenas nas costas...

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Morador de prédio de classe média-alta do bairro de Moema/SP fez desabafo no Facebook logo após chegar em seu apartamento e encontrar a porta arrombada. O crime aconteceu recentemente e passo a transcrever o relato da vítima:

O denunciante colocou a responsabilidade apenas nas costas do porteiro que permitiu a entrada dos marginais juvenis sem autorização. Entendo, como especialista em segurança condominial, que isso não é correto.

Senão vejamos:

É preciso entender que o trato com a segurança de condomínio deveria iniciar com um “Projeto de Segurança” realizado por profissional experimentado da área, isso com intuito de se levantar, inicialmente, as principais falhas e vulnerabilidades e em seguida apresentar soluções visando a minimização de riscos de invasão criminosa.

O problema é que na prática não é isso que acontece.

Pouquíssimos edifícios usam essa estratégia. A maioria entende que as soluções brotam do síndico, zelador e de moradores que se acham “entendidos” na área de segurança.

No futebol, todo brasileiro se acha um pouco técnico, mesmo aqueles que nunca  pisaram num gramado oficial. Os palpites surgem no calor da emoção do jogo, principalmente quando o time de coração está perdendo ou sendo desclassificado no campeonato.

Na área de segurança ocorre a mesma coisa. Nas reuniões e assembleias em condomínios os ânimos afloram e ideias mirabolantes pipocam. Cada participante se acha dono da verdade, mas poucos apresentam dados técnicos e estatísticos.

E, geralmente, qual a postura dos síndicos?

É o mesmo que uma “colcha de retalhos”, ou seja, o administrador, na tentativa de mostrar serviço, instala alguns equipamentos eletrônicos e físicos e com isso surge o que chamo de “sensação de segurança” entre os moradores.

O problema é que na prática temos apenas a “sensação” mas nenhuma efetividade concreta.

Assim como o torcedor apaixonado não tem a mínima condição de ser técnico de futebol, síndicos e moradores também não possuem expertise e experiência para elaborar estudo e plano técnico de segurança.

A realidade no que tange à segurança patrimonial vem à tona na eventuaridade de um sinistro no prédio.

A partir daí, os moradores mudam a retórica e passam a tecer sérias críticas em relação à segurança coletiva, e o primeiro culpado é condenado sem nenhum possibilidade de defesa .

A responsabilidade toda é jogada nas costas do elo mais fraco, ou seja,  o porteiro da guarita. Em muitos casos a demissão é sumária.

Mas será que o funcionário da portaria tem tanta culpa assim?

Será que somente ele deve ser responsabilizado?

Uma coisa é certa, porteiros e zeladores, geralmente, não são convidados a participar das reuniões nos prédios para tratar do assunto segurança. Portanto, quem lida com as dificuldades e problemas todos os dias não é ouvido, mas é sempre o primeiro a ser responsabilizado quando a invasão acontece.

A constatação que estou fazendo é tão verdadeira, que o morador que teve o apartamento invadido por dois adolescentes apontou o dedo da culpa para quem?

“Entraram facilmente pela portaria aproveitando a incompetência (ou leniência) do funcionário”.

O leitor pode estar fazendo a seguinte reflexão:

“Mas Lordello, o morador tem toda razão, pois foi o porteiro que liberou inadvertidamente a entrada de garotos estranhos ao edifício”.

Quero ressaltar, que a conclusão não é tão simplista como parece.

Antes de achar “culpado” ou “culpados”, é preciso encontrar respostas para uma série de indagações, que passo a expor:

-Quais as condições de trabalho dos porteiros do prédio invadido?

-Os cadastros de pessoas e veículos estão atualizados ou completamente desatualizados?

-Os porteiros dispõe de sistema informatizado ou têm que puxar na memória a fisionomia de todos os moradores e empregados domésticos?

-O edifício possui sistema de controle eletrônico para entrada segura de pessoas?

-Existe clausura de pedestres e intertravamento dos portões?

-Será que alguns moradores seguram a porta principal para estranhos também adentrarem ao prédio?

-Será que todos os moradores colaboram com a segurança ou muitos burlam normas pois preferem comodidade?

-Tem morador que entra no edifício e faz questão de deixar a porta principal entreaberta?

-O sistema de câmeras de segurança está funcionando plenamente ou apresenta defeitos? As imagens são nítidas à noite? O monitor usado pelos porteiros é moderno ou antigo? Qual a qualidade das imagens?

Para finalizar, tenho ainda algumas indagações ao síndico?

Os porteiros e zelador passam por treinamento e capacitação pelo menos uma vez por ano?

O prédio tem normas e procedimentos atualizados e específicos para controle de acesso de pessoas, veículos e mercadorias para os funcionários e moradores se orientarem?

Portanto, antes de responsabilizar o porteiro por qualquer sinistro que eventualmente ocorra no condomínio, fruto da violência urbana, é preciso refletir sobre:

Será que o administrador do prédio fez a lição de casa direitinho ou optou por soluções caseiras e amadoras?

 


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